A TUA MEMÓRIA

Hoje eu apaguei as tuas fotos do meu computador.

Algumas coisas mudam com o simples pressionar de uma tecla.

De repente veio tanta coisa no peito. Eu me lembro tão claramente do teu sorriso e da sensação que ele me causa. Uma das fotos era a do teu sorriso e foi a primeira que eu apaguei.

Eu me lembrei de todas as vezes que eu voltei pra casa pensando o quanto eu queria te contar o quanto eu te achava interessante, mas não contava.

Eu lembro das conversas que tivemos para resolver os nossos problemas e como eu ficava apreensivo com o rumo que elas poderiam tomar…

Se ao menos eu soubesse que rumo a vida tomaria como eu sei hoje.

Apertar a tecla delete é tão dificil no mundo físico, imagine então no mundo dos sentimentos e das lembranças em que essa tecla sequer existe. As lembranças físicas. O sabor do beijo; o cheiro que marca o olfato pra sempre – eu devo saber, lembro de cheiros que senti há 9 anos atrás, o que dizer dos que senti pelo última vez em menos de um mês? As marcas da pele encostando na pele… nosso corpo junto…

De repente eu lembrei do tamanho do nosso cabelo e como era a sensação de dormir com ele na cara… com o teu na minha cara.

É tudo tão próximo e tão genuíno que quase dá pra sentir agora.

Eu me recordo do som da tua voz… como ela soava durante o dia e como ela soava logo ao acordar, de manhãzinha… como ela soava a noite… e como ela sussurrava.

Tudo está aqui e não dá sinais de apagar.

Eu me lembro de toda a cautela do período de conhecimento e todo o encantamento. E toda a raiva que logo se transformava em prazer e logo se transformava em risadas.

Da preocupação e do cuidado. Das aventuras que passamos juntos… de um assalto e de um quase assalto…

Eu me lembro de te deixar em casa… De te surpreender em casa…  O porteiro já me conhece, não precisa nem interfonar.

O respeito é tão vivo… o espaço… a atenção… a desatenção também.

Eu queria te dançar, dançar todas essas memórias. Cantar goela abaixo esse sentimento e te escrever pra fora de mim, mas quanto mais eu movimento tua memória, mais ela aviva e aquece em mim.

Talvez o melhor fosse apertar não o botão do deletar, mas o botão do aquietar e talvez fosse melhor não cantar, nem dançar, nem escrever, nem tocar, nem sonhar, nem chorar a tua memória. Melhor mesmo seria viver o luto dessa memória e não mexer com o passado porque o passado é como a fogueira que acabou de apagar… se você mexe e assopra, ela torna a pegar fogo rapidinho.

Foi por isso que apaguei todas as tuas fotos hoje. Elas estão ventando em mim.

Anúncios

A Metamorfose

Aconteceu!

No instante de um olhar, aconteceu.

Em questão de segundos uma forte metamorfose de um homem nos braços de outro homem.

Seria tristeza, tédio, irritação? Provocação…

Amor não é!

O amor perdeu sua moral há centenas de anos.

Quem sabe seria ele amoral.

Quem?

Quem sabe?

Quem sabe quem?

O amor ou o homem?

A moral! Amoral… amoral, incapaz de entender, julgar ou avaliar…

Um homem comum transformado em outro nos braços de um terceiro seria capaz de julgar?

Seria possível entender?

Poderíamos avaliar?

Seremos nós amorais no amor dos braços de dois homens?

Ou o amor dos braços seria passível de julgamento?

Pode acontecer, aliás.

E aconteceu!

No instante de um olhar aconteceu uma metamorfose da moral nos braços de dois homens num amor de metrô.

 

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Ratos de Cidade

Era uma comunidade de ratos de esgoto, nada além disso e nada menos do que isso, apenas ratos de esgoto.

Eram ratos negros, com longas caudas, olhos escuros e que gostavam de se banhar em água suja.

Dona Rita, uma mãe ratazana conhecida pelos canos da cidade, estava prenha pela sétima vez. Não podia sair por um cano que recebia elogios:

– Como sua barriga está linda.

– Sétima vez? Mas você é tão jovem!

– Seus pelos estão tão brilhantes, fez algo diferente?

A beleza dos ratos da cidade.

Em sua sétima gravidez, nasceram sete pequenos filhotes rosas e dona Rita não parava de ser paparicada. Os machos, sentiam vontade de cortejá-la, ao ver tão bela prole, mas dona Rita, que também estava resguardada, se lisonjeava e dizia que pensaria a respeito.

Foi quando o pior aconteceu.

A vergonha.

O arrependimento.

O sétimo filhote da bela ratazana chamada Rita estava desenvolvendo uma pelagem branca!

Dona Rita, do fundo de seu pequeno coração de rata, não sabia o que fazer. Afinal era um rato branco em um emaranhado de canos com ratos pretos.

Ela tentou lavá-lo na água de esgoto, mas não obteve resultados. Tentou colocá-lo num cano de escapamento, mas também nada aconteceu.

Com o tempo, começou a ser uma tarefa árdua esconder seu sétimo filho da sociedade de ratos. Uns perguntavam:

– Você deu a luz a sete filhotes e eu vejo apenas seis. O que aconteceu?

Outras sugeriam:

– Você está escondendo seu macho mais bonito para nos surpreender.

Outros entristeciam:

– Nasceu morto?

A isso, Dona Rita sempre respondia:

– Algo assim. – e prosseguia seu caminho.

Ao chegar em seu lar, após um longo passeio pelos canos de uma casa no subúrbio, Dona Rita descobriu o pior: seu sétimo filho não estava lá.

Temendo pela vida do filho, saiu em disparada para encontrá-lo.

Perguntava as ratas do bueiro se algo estranho havia acontecido e elas respondiam cheias de nojo:

– Um rato branco dos olhos vermelhos passou por aqui.

Perguntava a alguns machos enfurecidos e eles respondiam:

– Um rato branco de olhos vermelhos passou por aqui.

Perguntava à respeitáveis donas de casa, de classe média, que varriam a rua e elas respondiam:

– Um nojento rato branco, com horríveis olhos vermelhos, passou por aqui.

E em seu desespero, continuava a correr, até encontrar o jovem rato branco tremendo num canto, tentando se lavar com água limpa.

– Como você faz uma coisa dessas comigo? Você viu a vergonha que me fez passar? Onde foi que eu errei? O que eu fiz de errado para ter um filho branco dos olhos vermelhos?

Então notou que outros olhos negros, olhos inquisidores, a olhavam.

A vizinhança inteira estava em choque ao saber que o nojento rato branco, cujos olhos eram avermelhados, era seu filho. Uns comentavam:

– Uma rata tão bela e jovem, como foi ter um desgosto desse tamanho?

Outros insultavam:

– Era uma vagabunda!

Mas a maioria queria justiça, acima de tudo:

– Dona Rita, a senhora é uma bela rata, uma rata promissora, mate seu filho.

Dona Rita estava perdida sem saber o que fazer até que a vizinhança se transformou numa população de peste que queria justiça para sua comunidade.

Dona Rita não teve outra escolha a não ser entregar o próprio corpo a morte da multidão que a comia viva juntamente com seu filho e, até hoje, dentre a população de ratos negros, com caudas longas, olhos escuros e que se banham em água de esgoto, quem comenta algo sobre Dona Rita e seu filho branco, morre.

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

àrté

Antes de amor, há que se ter paixão pela arte.

Pegar a arte pelos cabelos e beijar seus lábios carnudos.

Sentir sua língua na boca da arte, sentir a língua da arte em si, e arranhar suas costas com prazer.

Despir a arte de todas as suas roupagens, lamber suas mãos e mamilos e ter uma uma ereção com ela.

Há que se esfregar nos pelos da arte e lhe chupar as partes íntimas.

Sentir a arte entrar em si e sentir-se dentro dela.

Os cabelos arrepiarem e as pernas perderem a força com o toque da arte.

Há que se ejacular um gozo da alma na arte e manchar seu rosto,

seu corpo

e seus lençóis.

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Um País de Intelectuais?

Li um texto muito interessante sobre Sociologia e comecei a pensar. Eu até tento não fazê-lo para sofrer menos, mas é inevitável. Vamos sofrer juntos, então. Sabe como surgiu a Sociologia? Não eram filósofos, a princípio, não eram homens da ciência, nem pessoas que viviam dessa profissão; eram homens voltados para a ação. Quem iria imaginar que as pessoas agem, não é mesmo? Ou agiam ao menos. A sociologia nasceu como um estudo das sociedades pós revolução industrial e revolução francesa para que, compreendendo-as, essas pessoas pudessem agir e transformá-las. Parece interessante. Até mesmo utópico. Mas vamos começar a pensar. Porque acho que encontrei algumas discrepâncias quando tentei adaptar isso a minha sociedade.

Por que as pessoas acumulam conhecimento hoje em dia?

Para ação é que não me parece que seja.

Sim, pois, por experiência própria vejo cada vez mais se multiplicarem os grupos de discussão e só. Encontro grupos querendo debater tal vertente filosófica. Conversar sobre o preço das garrafas de refrigerante sob o ponto de vista da teoria marxista. O existencialismo, evolucionismo, socialismo, comunismo, empirismo, racionalismo, construtivismo, -ismo, -ismo… o pedantismo! Pernósticos.

Nesse meio, se você disser a palavra ‘deus’ é como jogar um osso a cães que não comem há dias. Um alvoroço.

Sim, todos têm uma sede de conhecimento e uma voracidade para o debate que chega a impressionar. É lindo. Mas na hora de agir… Bom, a coisa fica diferente. Se eu pensar que 20% dos que amam esses debates de fato fazem alguma coisa, eu ainda vou imaginar que estou sonhando alto. Claro que esse não é um dado estatístico real.

Serei muito criticado por essa postagem, tenho certeza. Mas sabem por que não tenho medo? Porque serei criticado por homens mortos. Sim! É ótimo. Isso porque uma das grandes sacadas dos atuais acadêmicos, dos intelectuais de minha própria época é não pensar. Foi a ideia mais inteligente de todas. Se quiser ser inteligente, não pense.

Fui um pouco vago, deixe-me ser mais específico. Certamente serei criticado por Kant, por Marx, Platão, Descartes, Durkheim, Rousseau, Voltaire, Hegel, Baudelaire, Nietzsche, Adorno, e muitos outros. Com tanta gente morta falando mal de mim, sinto até vontade de levar flores a seus túmulos. Claro, porque muitos dos ‘intelectuais’ hoje em dia são máquinas de gravar e reproduzir. Passam horas devorando livros e na hora de falar repetem o que está escrito neles.

Pegue um destes livros, qualquer um deles. Você verá uma coisa interessante. Um filósofo fala sobre outro, concorda ou discorda dele, assim como se faz hoje em dia, só que com uma única diferença: todos eles estavam vivos aproximadamente da mesma época. Eram os vivos falando com os vivos. Fantástico. Vivemos num mundo mórbido.

Claro, sem generalizações. Há pequenas exceções.

O que é mais interessante é que um outro prato cheio para esses vorazes rádios, a alienação, é exatamente o que muitos deles vivem. Buscam medidas de criticá-la, de se auto afirmar como entendidos do assunto e superiores a isso, mas não entendem a própria comunidade em que vivem, em que estudam, em que trabalham.

Quando percebo que os intelectuais do meu país não são tão intelectuais assim (além de preguiçosos), perco o meu chão, entro em desespero. Não quero viver num mundo morto! Pena que é um pouco tarde. Quem sabe num futuro próximo.

Como observação interessante, acho que o cúmulo que vi semana passada na minha faculdade foi um estudante pagando no cartão de crédito uma camiseta do Marx. Hilário.

E nesse meio tempo eu critico, falo, vou pra cima, tento tomar as ações que me cabem, e penso, penso, penso até descobrir que a pior coisa que fiz na minha vida este ano foi entrar pra faculdade.

Feliz dia dos blogueiros.

Etiquetado , , , , , , , , , , , , ,

Um país de alienados

Você já ouviu alguma história sobre teoria da conspiração? Alguma ficção, algo que mostre uma sociedade controlada por um órgão governamental. Que nos coloque em alerta para nossas próprias vidas sendo controladas. Esse, inclusive, foi o tema abordado pelo livro do escritor George Orwell, chamado 1984. Bem, talvez você se impressione no quanto a ficção é baseada na realidade.

Esta noite parei para repensar no controle que George Orwell apresenta em seu livro. A história do livro é a de um mundo em que todos são vigiados vinte e quatro horas por dia, sete dias na semana pelo Grande Irmão. As pessoas tinham de seguir certas regras pois o Grande Irmão sempre estaria observando caso elas não seguissem. Repensei o sentido de alienação e resolvi trazer a história para nossa realidade.

Em minhas aulas, quando eu dava uma lição de história, eu apresentava a meus alunos suas conseqüências na história atual e jamais conseguia fugir de um ponto crucial. Pergunto a você, assim como perguntava a eles: Você gosta ou não de greve? Você gosta ou não de quem faz greve? Bem, meu caro, posso não o conhecer, mas imagino que a resposta da maioria das pessoas que lerem este artigo serão não, não gostam. Então lhes pergunto: o que é uma greve? E aqui o mundo mágico da alienação começa a trabalhar. Sim, porque já ouvi de tudo já ouvi pessoas dizendo que é “um bando de vagabundos que não gosta de trabalhar”, “um grupo de espertalhões que querem ganhar muito e trabalhar pouco”, “férias fora de hora”, inúmeras outras respostas de mesma qualidade que as pessoas nem precisavam pensar para responder.

Antes de seguir em frente, vamos mais além: você sabe quanto ganha um professor? Imagina o salário de um coveiro? De um motorista de ônibus? De um gari? De um carteiro? Espero que não fique surpreso se souber que o ‘vagabundo’ deve ganhar algo em torno de setecentos reais por mês. E todos esses vagabundos devem trabalhar mais de oito horas por dia, quando não aos sábados e domingos. Vamos além, pegar o exemplo dos professores da rede pública de ensino. Alguns professores ganham setecentos reais para permanecer um dia inteiro em pé, falando e ajudando a construir a educação de seu filho. Vamos aprofundar nisso? O salário desse profissional para exercer essa tarefa pesada, além de baixo, sofrerá todo tipo de descontos antes de chegar às mãos dele. Imagine que aproximadamente vinte por cento dos setecentos não serão entregues por descontos com impostos. Sem falar no imposto de renda anual, Imposto Predial e Territorial Urbano, e todos os outros tributos cobrados de todos nós, cidadãos brasileiros. E esse professor, certamente, terá de dar aulas em mais duas ou três escolas para ter um salário que dê para sobreviver. E o ‘vagabundo’ não tem direito de fazer greve por aumento de salário?

Vendo por esse ângulo até que nos faz pensar. Mas vamos voltar ao ponto inicial. Por que será que temos esse sentimento enraizado dentro de nós? Não parece algo certo. Diga-me, você já viu a seguinte manchete em um jornal: “Greve de metroviários afeta quarenta mil em São Paulo”? Acredito que você já tenha visto em algum momento de sua vida. Agora essa é uma manchete que você nunca viu e provavelmente nunca verá: “Governo paga salário baixo e metroviários entram em greve por melhoria”. Neste ponto, basta pensarmos em quem culpamos com cada manchete dessas. Na segunda, todo o nosso ódio, nossa raiva, cai inteiramente sobre o governo e toda vez que tivermos que fazer o caminho mais longo de ônibus estaremos pensando que, se o governo funcionasse, aquilo seria evitado. Agora, com a primeira opinião, cria-se um sistema em que a população em massa gera ódio contra greves e automaticamente contém os primeiros focos dela. Conseguiu entender um pouco a alienação?

Se você acha que isso para por aí ou quer fazer uma pausa para repensar o assunto, aproveite este momento, pois eu acho que quero aprofundar mais.

Você já entendeu o conceito da greve e da alienação, agora eu quero que você expanda isso e perceba que todo o nosso sentido de realidade está errado. Nosso sentido de beleza é manipulado, saúde, caráter, valores, moral, opinião, trabalho, ideologia, cultura, aceitação, medo e muito mais.

Vamos ver mais um exemplo disso: um ator e um médico. Duas das mais antigas profissões do mundo. O primeiro ajuda a sociedade a pensar, instiga o conhecimento, o questionamento. O segundo não pergunta muito, mas salva sua vida. Bem, temos dois universitários: um prestando artes cênicas e outro prestando medicina. Adivinhe então qual a sociedade recrimina mais? E se eu te disser que o profissional formado em medicina pode ter menos chance de conseguir emprego que o ator, que pode fazer seu trabalho inclusive na rua? Sim, pois o mercado de trabalho para médicos recém formados está saturado. Formamos muitos médicos, mas não temos vagas para eles.

Se você acha que já vimos o bastante, eu quero continuar com o exemplo do ator, mas antes eu preciso apresentar-lhe outra novidade: lembra quando citei a teoria da conspiração em que o Grande Irmão de Orwell observa a tudo? Imagine a seguinte situação: o Grande Irmão está morto há anos e, ainda assim, continuamos acreditando que ele existe.

Com o exemplo do ator, vamos remontar o Brasil dos anos de chumbo. Ditadura militar brasileira. Pensar era proibido e o governo repreendia isso. Nessa época, caso você não tenha conhecimento, as forças armadas deram um golpe de estado e tomaram o poder, comandando tudo e, qualquer um que fosse contra os ‘valores da ditadura’, era chamado de terrorista, caçado, torturado e morto. Nessa época, vale mais um médico que pode salvar a vida de um policial ferido sem perguntar nada ou de um ator que vai fazer a população questionar as ações, pensar e não aceitar o que lhes é imposto? Começamos a criar esses preconceitos de que ator é vagabundo, de que quem muito questiona é terrorista. Gera-se o medo. E não só nesta época, como muitos anos antes, desde Getúlio Vargas e antes ainda.

Acontece que tudo isso terminou, ao menos na teoria, na década de oitenta, mas seus reflexos permanecem até hoje. Sim, pois quem nasceu nesta época adquiriu esses valores e os passou adiante. Em 1943, Nelson Rodrigues revolucionava o teatro brasileiro com o ‘Vestido de Noiva’ e em 1990 temos praticamente a falência dessa arte.

Novamente, fixei a explicação a um fato apenas, mas ele estende-se a todos. E isso acontece em escala global. Todas as pessoas são levadas a acreditar em certos padrões desde sua infância, então, quando crescem, deixam de questionar pois cresceram com aquela idéia e apoderaram-se dela, sem ter outra opção.

Li uma vez pela internet uma curta história que lhes contarei: em uma sala foram colocados cinco macacos, uma escada e uma banana no topo. Cada vez que um macaco subia na escada os outros tomavam um banho de água fria. Aos poucos começou a repressão e, se algum macaco quisesse subir a escada, apanhava dos outros. Então substituem um macaco por um novo. Este novo ser vê a banana e, antes de subir a escada, apanha dos outros e aprende que não deve subir. E isto se segue quando se substitui mais um, com a diferença de que, o primeiro novo macaco ajuda a espancar o segundo. Até que substituímos todos os macacos da sala, mas eles sabem que quem subir a escada deve apanhar sem nem ao menos saber do banho de água gelada. Eles agem sem saber porquê o fazem, mas assim foram condicionados.

Você e eu não passamos de macacos que obedecem a regras sem motivo para existir. Regras sociais, morais, tradicionais, preconceitos e tudo isso é controlado por sombras de épocas passadas que sequer chegamos a conhecer.

Quero citar a primeira frase de um musical que diz: Como documentar a vida real quando esta se torna mais ficção a cada dia?

Não sei quanto a você, mas eu fico assustado com a velocidade em que o sentido moral e a verdade são levados a limites absurdos.

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Um país de impostos

O Brasil é um país que ainda engatinha em sua história. Em perspectiva com países europeus que tem mais de três mil anos de história, nosso país está ainda em seus quinhentos.

Esta noite estive estudando um pouco a maturidade da burguesia provada na revolução francesa lutando contra o abuso governamental que cobrava impostos tremendos e pouco subsidiava seu próprio povo e fui obrigado a remeter-me a meu próprio país.

Um dos motivos causadores (e houveram mais de um) da revolução francesa foi a abertura do estado para produtos importados da Inglaterra, o que aumentava a economia estatal, mas destruía a economia interna. Bem, vamos trazer isso a nossa realidade e revisar nossa própria estrutura.

O Brasil tem um imposto especial que valoriza a indústria nacional, que é o imposto sobre o produto importado. São impostos com taxas altas, mas que tem seu propósito. Veremos sua aplicação prática: você deseja comprar um perfume, por exemplo. Tem duas opções: o nacional e o importado. Com o imposto sobre o importado seu preço vai chegar a trezentos reais, aproximadamente, enquanto que o nacional sai por menos de cem. A idéia funciona: você tende a comprar mais produtos nacionais, pois gastará menos com isso, a economia interna crescerá e estaremos felizes. Bem, felizes, mas nem tanto. Vamos ver outra situação: você é um jovem que adora vídeo games e quer comprar o mais novo vídeo game que saiu. Aconteceu que não existe, até então, uma indústria de jogos nacional equivalente a internacional, mas ainda cobra-se o imposto sobre sua importação. Ora, se o imposto serve para valorizar o produto brasileiro, ainda é válido cobrá-lo quando não possuímos um equivalente? Qual é a indústria automobilística nacional? Até onde eu tenho conhecimento, a única que tínhamos faliu há muito anos atrás. E nossas indústrias de tecnologia? Por que pagamos a mais se não temos outra escolha?

Muito bem, vamos ver se isso funciona de uma outra forma: pegamos o dinheiro gerado por esses impostos e investimos nesses setores defeituosos para então termos um produto equivalente em que vamos economizar nosso dinheiro e valorizar nossa indústria. Desculpem se pareço errado, mas me parece sensato aplicar o dinheiro gerado por um imposto que pretende aumentar o consumo do produto brasileiro, na melhoria desse dito produto. Acontece que não acho que as coisas funcionem dessa forma também. Vejam, por ano, com estes impostos, obtemos uma receita de, aproximadamente, duzentos bilhões de reais. Desses duzentos, me parece que serão destinados ao fomento da indústria nacional em 2012, algo próximo dos cinqüenta bilhões.

Para onde vão os outros cento e cinqüenta bilhões? Quer tentar responder?

Calma, eu acho que ainda podemos ver uma luz no fim do túnel: nós temos como saber para onde vai esse dinheiro! Nossa, parece um sonho, não? O governo brasileiro criou o portal da transparência, onde você pode acessar do seu computador toda a receita e despesa pública. Seria ótimo, mas responda-me, com sinceridade: você entende esses números? Vamos colocar isso sob outro ponto de vista que me parece seguir a mesma linha de pensamento: você entenderia uma bula de remédio escrita somente em termos técnicos? Bom, minhas esperanças foram por água a baixo. O portal da transparência não me é transparente!

Mas o orgulho as vezes fala mais alto, não? Nós olhamos os números e dizemos com certeza: em São Paulo os investimentos nas obras de expansão do metrô foram de aproximadamente quatro bilhões e meio. Ótimo, mas me diga: quantos metrôs você já comprou em sua vida para saber que foi um bom negócio? Na licitação aberta não havia nenhuma outra empresa que fornecia um serviço de mesma qualidade com menor valor? Você tem os dados transparentes dessa licitação? Se você quiser tempo para pensar, fique a vontade para parar de ler, mas eu gostaria de ir além.

Estamos falando de impostos, transparência pública, mas não vamos fugir do foco: o crescimento da indústria nacional. Deve haver um meio de salvar nosso país. Bem, tente abrir uma empresa e vamos ver se você agüenta a pressão governamental sobre seu bolso. Sim, pois veja que ponto interessante nos impostos cobrados das empresas do Brasil. Digamos que você tem um faturamento bruto de trezentos reais. Faturamento bruto, para quem não sabe, é o dinheiro que entra sem nenhum desconto de impostos. Bem, você paga um imposto sobre esse valor, o imposto de renda. O que me preocupa é o que vem em seguida, além desse valor você deve pagar algo chamado: CSLL (Contribuição Social sobre Lucro Líquido). Numa explicação simples o lucro líquido seria o valor restante após os descontos de impostos. Vamos ver se você entendeu: Dos teus trezentos reais brutos eu desconto um valor de imposto de renda e do que sobrar eu desconto mais um valor de Contribuição Sindical sobre o Lucro. Não bastasse isso, toda empresa tem seus gastos com material, recursos humanos, matéria prima, aluguel, contas de água, contas de luz e pense que cada item que falei tem seu imposto vinculado.

Depois de passarmos por tudo isso, acha mesmo que existe algum incentivo para o crescimento da indústria nacional brasileira?

Corrija-me se eu estiver errado, mas eu responderia não.

O Brasil tem uma grande fonte de renda, mas me parece que nunca tem dinheiro para as questões realmente importantes. De todos estes bilhões quanto custaria o salário de um economista que oferecesse artigos dentro do site da transparência pública para explicar todos os números? Quanto custaria destinar o dinheiro gerado para fortalecer a indústria brasileiro de fato com seu fortalecimento? Quanto custaria fazer o que é certo?

Não estaria o governo brasileiro agindo como a coroa francesa no século XVIII, gastando com a manutenção de uma vida luxuosa de uma elite, cobrando impostos abusivos do povo, limitando seu acesso ao crescimento e abrindo as fronteiras do país para que empresas estrangeiras possam sugar nossa mão de obra, nossa matéria prima, nosso dinheiro, nossa indústria?

Me pergunto o que falta para tornarmos a revolução francesa uma revolução brasileira que beneficie mais os trabalhadores do que o governo, governo esse mais bem pago do mundo.

As vezes acho que penso demais.

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Revolução

São Paulo, 15 de Novembro de 2018

Boa noite, companheiros,

Faz tempo que não escrevo.

Desde a revolução televisiva em 16 venho tentando encontrar um momento solitário para sentir mais uma vez a magia de ter um caneta em mãos.

Fui preso duas vezes neste período, por isso tem sido difícil o contato com a união.

A primeira vez que fui pego, foi na fronteira entre o Rio e São Paulo quando eu tentava contrabandear uma rara coleção de livros de 1998 para um companheiro em Copacabana. Inventei uma desculpa, disse que aquela não era minha bolsa, que deveria ter acontecido algum erro na bagagem, mas tive de pagar uma alta fiança para não ser preso por porte ilegal de material impresso.

Na segunda vez, estava sentado em um hotel barato com uma edição de bolso do Drácula, mas haviam câmeras em todos os quartos e fui apanhado pela Federal. Como já estava fichado, fui condenado a seis meses de prisão, sem direito a fiança.

Já livre em 2017, fui apanhado mais uma vez portando cartas de meus familiares que guardava desde 1982. Peguei dois anos em cárcere fechado, tive minha casa revirada pela Federal e todos os meus pertences queimados.

Confesso que sinto um certo medo por estar redigindo uma carta, mas este sentimento revolucionário me dá excitação e sei que é isso que desejo fazer pelo resto da minha vida. Como um país pode colocar todos os seus cidadãos em frente a uma televisão e ditar-lhes regras que eles nem sabem porquê seguem?

Sinto que a polícia mantém uma certa vigilância em meu encalço, mas mesmo assim, desejo voltar a me reunir com os membros da união. Nos tempos em que fiquei preso tive muitas idei_____           

A Feira

Ontem fui a uma feira de literatura com alguns amigos e me deparei com uma cena que chamou muito a minha atenção.

Antes de prosseguir, há a necessidade de uma explicação. Me sinto extremamente atraído por esses encontros artísticos não só pelo conteúdo que podemos extrair a partir deles, mas também porque gosto de observar as pessoas e ver como são curiosas.

Pois bem, estava caminhando pelos vários estandes que ali estavam quando me deparei com algo que chamou muito a mina atenção: caminhavam despreocupadamente uma grande escritora, um professor de faculdade e um dos homens mais inteligentes do país. Pareciam ter acabado de chegar e andavam juntos como três grandes amigos.

Em um momento os três se separaram e resolvi descobrir o que cada um sentia mais prazer em fazer.

Andando um pouco mais encontrei o professor de faculdade num pequeno estande discutindo com o vendedor. Por motivos éticos não vou escrever exatamente o que ele disse, mas vou dar-lhes uma ideia:

– O que é que vocês pensam que estão fazendo aqui? Estes livros. Não tem um que sirva para alguma coisa. As pequenas dissertações que escrevo aos domingos valem mais do que esta porcaria toda. Que tipo de gente compra isso?

Pensando que ele era um professor, quero dizer, doutor de uma boa faculdade, julguei que ele estava certo no que falava e resolvi não comprar nada daquela editora.

Um pouco mais a frente encontrei a escritora para ver o que ela pensava sobre o evento que estava participando. Ela estava cercada por alguns fãs de sua obra e parecia lhes ensinar algo grandioso.

– Eu não recomendo que você compre este livro. Sem querer ofender o autor, é claro, mas vejo que ele trata o assunto com tanto amadorismo que eu acho que ficaria doente só de tocar na capa. – e riu-se.

– Mas Maria (nome alterado) – perguntou um dos que estavam observando a escritora -, eu não consigo acompanhar seus textos. São muitos termos técnicos difíceis de ser compreendidos.

– Ora, meu anjo – respondeu -, se você chegou a este ponto, acho melhor desistir de qualquer tipo de interação com o meio artístico.

E julguei eu estava certa, mesmo eu próprio não conseguindo compreender certos pontos de sua literatura.

Em meio a tanta discussão literária de ótimo teor, resolvi encontrar o terceiro amigo, pensando que poderia aprender mais com ele, por se tratar de um sujeito inteligentíssimo. Porém, o procurava por todos os lugares e ele parecia ter sumido da feira.

Fiquei chateado por não encontrá-lo e resolvi fazer algumas compras para não perder o meu dia nisso.

Ao sair da feira, vi algo que julguei ser novo e muito estranho.

Ele poderia estar discutindo literatura clássica do século XV com tantas pessoas conceituadas que estavam dentro da feira, mas ali, sentado junto a um grupo de mendigos, conversando calorosamente, vi um dos homens mais inteligentes do país.

A Muda

Cecília Conceição Camargo Carvalho nasceu muda, e talvez isso lhe bastasse.

Cecília nasceu trabalhando e viveu trabalhando, mas isso não era suficiente para que tivesse voz.

Cecília apanhava e chorava.

Cecília cozinhava, Cecília passava, Cecília limpava, Cecília lavava, mas depois de tanto esforço para ser mulher, não tinha força para deixar de ser muda.

Cecília olhava e pensava.

Cecília Conceição Camargo Carvalho estava tão acostumada a ser muda, que depois de tanto tempo, não conseguia lembrar-se de como era falar.

Dava a luz, criava os filhos e concedia todo o apoio que necessitavam.
O marido era um falador e seus filhos homens tinham voz sempre.

Cecília Conceição um dia, de tanto pensar, resolveu falar. Não era muda afinal.

Falava com a fluência de um homem, mas com uma inteligência desconhecida.

Cecília começou a ser o centro das atenções por onde passava e todos que a viam falar apontavam, desconfiavam, não conseguiam compreender.

Cecília C. Camargo, assim que começou a falar, começou a ouvir.

Ouvir de seu marido, ouvir de seus vizinhos, ouvir até de desconhecidos.

Mas Cecília se recusava a ficar calada.

Cecília nunca mais dormiu.

%d blogueiros gostam disto: